domingo, 22 de agosto de 2010

Cálculos Biliares - Dr. Francisco José Salfer do Amaral




Entrevista sobre Cálculos Biliares com Dr. Francisco José Salfer do Amaral


ALEX: Cálculos biliares são uma espécie de pedra que se forma na vesícula biliar. Os sintomas demoram a aparecer, por isso, é preciso ficar atento aos sinais do corpo. O programa Receita de Saúde de hoje convidou o doutor Francisco José Salfer do Amaral, que é gastroenterologista, para conversar conosco sobre cálculos biliares. Doutor, bom dia! Quais são as pessoas que tem mais chances de terem cálculos biliares?
Dr. FRANCISCO: No mundo ocidental, a grande incidência do cálculo biliar se deve, principalmente, à dieta ocidental, que é uma dieta baseada em gorduras. Os pacientes ou as pessoas que têm mais predisposição são aquelas na faixa etária a partir dos 40 anos de idade, mulheres (a grande maioria é de mulheres) e obesas que tiveram inclusive, multigestações.

ALEX: Doutor, estamos falando sobre cálculos biliares, mas talvez haja muita gente que não saiba o que eles são. O senhor pode nos explicar o que são os cálculos biliares?
Dr. FRANCISCO: Cálculo é sinônimo de pedra, então nós podemos ter pedras nos rins, e podemos ter pedrinhas dentro da vesícula, que chamam-se cálculos biliares.

ALEX: A vesícula fica em que parte do corpo e para quê ela serve?
Dr. FRANCISCO: A bílis (secreção que auxilia a decomposição da gordura no intestino) é produzida pelo fígado, então a vesícula biliar fica abaixo do fígado, mais precisamente, abaixo da costela. Quando a gente pega a última costela direita ela fica, basicamente, naquela região abaixo do fígado. A vesícula é um órgão acessório e serve para armazenar a bílis e ela liga com um canalzinho, o fígado ao intestino. Uma parte da bílis, quando nós temos uma necessidade maior por uma alimentação mais gordurosa, a vesícula libera essa bílis concentrada para fazer a complementação da digestão.

ALEX: Como surgem os cálculos biliares no organismo da pessoa?
Dr. FRANCISCO: Já que a função da vesícula é concentrar e armazenar essa bílis, acontece o que a gente chama de bílis lutogênica, ou seja, uma bílis que já é predisposta e vem rica em colesterol (uma das composições da bílis é o colesterol, além dos sais, sódio e outras espécies de cálcio). A bílis sendo demasiadamente seca, ela pode agregar esse colesterol que está dentro da bílis dissolvido em forma líquida e pode se agregar em micro cristais ou micro partículas que vão se juntando e formando pedras resistentes.

ALEX: Quer dizer que seria uma gordura que vai se cristalizando?
Dr. FRANCISCO: Exatamente. Pelo excesso de concentração da bílis e por essa bílis estar desequilibrada, ela está rica em colesterol e não está nos percentuais adequados.

ALEX: O que uma pessoa que tem cálculo biliar sente?
Dr. FRANCISCO: Uma grande parte da população fica sem saber que teve cálculo biliar a vida inteira e, às vezes, morre sem saber se teve a doença. Ou, o paciente vai fazer um outro exame por um motivo qualquer e se acha o cálculo, embora ele nunca tenha sentido nada. Então uma grande parte da população nunca vai sentir nada, mas existe um percentual que começa a ter os sintomas. Como a bílis é necessária para que haja uma boa digestão, quando houver necessidade da vesícula ser acionada para que essa bílis vá para o intestino, a pessoa vai começar a apresentar os sintomas porque ali tem cálculo. Então os cálculos vão começar a se movimentar devido a contração da vesícula e entopem os canaizinhos e aí começa-se a ter dor e dor em forte intensidade. A dor é comparável a da cólica renal e até mesmo a dor de um parto e é muito intensa nessa região abaixo da costela, que pode irradiar para as costas e para a região posterior da escápula, inclusive.

ALEX: Mas é possível a pessoa ter cálculo biliar sem essa dor?
Dr. FRANCISCO: A grande parte. Mais de 50%

ALEX: E nesse caso não há um problema para o organismo da pessoa?
Dr. FRANCISCO: Não há nenhum problema, mas eu sempre costumo colocar para os meus pacientes que, quem tem cálculo na vesícula tem uma bomba-relógio, pois ele pode desenvolver subitamente, sem que ele imagine, por uma refeição. E o pior é que se ele estiver longe de um centro médico ele pode sofrer várias conseqüências por falta da assistência imediata. Se o paciente não tem, ele começa com uma dor intensa nesse local do abdômen e ele não consegue suportar a dor, precisando ser atendido numa emergência médica. Tem casos em que o paciente vem procurar o atendimento, numa consulta de rotina, porque embora eles não tenham dores fortes, quando comem uma gordura ou um alimento mais pesado, isso causa um desconforto nessa região do hipocôndrio direito e apresentam enjôo quando comem e até vômito. Nesses casos, os pacientes são examinados numa clínica por um médico especializado.

ALEX: Quando a pessoa não sente dor e ela tem o cálculo biliar, como o médico faz o diagnóstico desse problema?
Dr. FRANCISCO: Se ele não tiver dor, ou seja, for assintomático, dificilmente a gente vai pensar que ele tem a doença, então seria um achado. Mas geralmente esse paciente que tem o cálculo, a gente chama de dispéptico, ou seja, ele tem uma dispepsia. O termo dispepsia na gastroentenrologia, é um termo que engloba a má digestão. Então vai desde um mal-estar no abdômen até uma distensão ou estufamento do abdômen, uma cólica discreta e vários outros sintomas. Nesse caso, o paciente vai ser investigado e geralmente a gente pede uma ultra-sonografia, que é um exame preciso para isso e que faz o diagnóstico de pedra na vesícula. Geralmente os pacientes que têm cálculo biliar, um grande percentual tem também doenças gástricas relacionadas como gastrite e principalmente, a doença do refluxo ou uma hérnia associada. Então quase que simultaneamente nós fazemos uma endoscopia digestiva com uma ultra-sonografia. Esses dois exames vão nos dar exatamente qual o problema do paciente.

ALEX: Como se faz o tratamento para o cálculo biliar?
Dr. FRANCISCO: Temos que observar dois pontos: o quadro agudo do paciente, ou seja, se ele entra numa emergência médica com dores intensas e se diagnostica cálculo biliar. Se a vesícula já inflamou, porque quando ele entra num caso desses, geralmente a vesícula já está inflamada e o cálculo promoveu uma irritação na parede da vesícula e ela inflamou. Nesse caso, é necessário uma cirurgia de urgência para retirar a vesícula. Nos casos em que o paciente vem tendo crises, mas são crises em que o paciente consegue suportar, às vezes, ele prefere levar isso adiante, mas em todos esses casos o paciente tem indicação cirúrgica. O tratamento da pedra na vesícula é a cirurgia. O tratamento clínico é um tratamento de seção, ou seja, ele é paliativo e o paciente corre o risco de sofrer uma complicação. E a complicação muitas vezes é severa, porque além dessa inflamação que pode acontecer na vesícula, o cálculo pode se deslocar da vesícula e entrar no canal da vesícula, entupindo assim, lá embaixo, onde sai no intestino. Então ele pode ter pancreatite que são complicações graves no pâncreas, ele fica com o olho amarelo, tem calafrios resultantes de uma colangite, que é uma inflamação nesse canalzinho e que tem alto grau de mortalidade. É uma doença até potencialmente fatal quando complica. Se o paciente começa a ter crises e já tem uma qualidade de vida diminuída, o melhor é ele fazer uma cirurgia.

ALEX: Doutor, no caso da cirurgia. Qual é o tipo de cirurgia e como ela é feita?
Dr. FRANCISCO: A partir de 1990 se instituiu a cirurgia labaroscópica e ela revolucionou não só o tratamento das cirurgias em geral, mas principalmente da vesícula. É uma cirurgia que antes era realizada aberta, com riscos e com dor, uma internação enorme de tempo e com complicações pós-operatórias. Agora o paciente faz a cirurgia em um dia e no outro já está em casa, quase que sem dor. Se tira a vesícula, ela não fica porque ela está doente, e o paciente vive muito bem sem a vesícula. Atualmente a cirurgia dá mais segurança, menos dor e ela ficou muito mais econômica em relação aos convênios em função do tempo menor de internação e os outros fatores já mencionados.

ALEX: Quando a pessoa fica sem vesícula, a alimentação dela deve mudar?
Dr. FRANCISCO: Não. 50% da bílis já passa direto para o intestino e já faz a digestão lá mesmo. Retirando a vesícula, eu vou desviar toda essa bílis para o intestino, misturando-se ao bolo alimentar. Antes, quando o paciente está doente, com pedra na vesícula, aí sim ele precisa fazer dieta e evitar gordura porque ele vai ter crises severas se não o fizer. Mas após a retirada da vesícula e do cálculo biliar ele está curado e não há restrição alguma, ou seja, ele volta completamente à vida normal.

ALEX: Depois que a pessoa tira a vesícula, com o passar do tempo, ela tem algum tipo de crise ou dor, ou isso não acontece mais?
Dr. FRANCISCO: Isso não acontece mais.

ALEX: Doutor, é possível prevenir o aparecimento de cálculos biliares?
Dr. FRANCISCO: Não tem o que fazer. Se for para ter, ele terá.

ALEX: O nosso convidado de hoje foi o doutor Francisco José Salfer do Amaral, que é gastroenterologista. O doutor Francisco nos falou sobre cálculos biliares. Muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa! O programa Receita de Saúde fica por aqui. Voltaremos amanhã com mais um tema de saúde que vai interessar a você. Até lá!




Fonte: Receita de Saúde

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